A pesquisadora Edinha Diniz é a maior autoridade sobre a compositora Chiquinha Gonzaga, vida e personalidade apaixonantes. A pesquisadora é autora de um estudo pioneiro sobre a grande mulher e maestra, que deu origem à famosa minissérie da Rede Globo sobre a artista. Edinha fez esta preciosa entrevista imaginária com a compositora para o vivacombeleza.com.br. Imperdível.
1. Chiquinha Gonzaga, o que a música representa para você?
Tudo, a música representa tudo. Sem música, não consigo respirar. O ar é mais belo quando é sonoro, musical… Desde menina, eu sei que a vida só vale a pena com essa possibilidade de encantamento. Ali, no piano, tudo se resolve com harmonia. É assim que deve ser na vida também.
2. Como foi sua infância?
Nossa casa era cheia de crianças, brincadeiras e alegria. Fazíamos muita algazarra. Estudávamos em casa e eu tinha em meu irmão Juca um grande companheiro. Tive uma infância despreocupada e nunca imaginei que essa paz pudesse ser quebrada, um dia.
3. Foi o casamento que quebrou essa paz? Mas esse acontecimento não deveria ser o mais importante na vida de uma mulher do seu tempo?
Não me fale em “seu tempo”. Como se uma vida tivesse que ser aprisionada em um tempo. Assim como na música, podemos alterar esse tempo. É verdade que papai sonhava com um bom casamento para mim. Falava disso em casa, mas não comigo. Eu ouvia os rumores, conversas sussurradas, cochichosem família. Fuicomunicada do pretendente como fato consumado, sem nenhum direito a recusa. O senhor Jacinto permaneceu um estranho para mim, até mesmo depois de me dar três filhos. Foi um calvário esse casamento.
4. E sua paixão por Carvalhinho?
Pois é, sempre apreciei no João Batista seu gosto pela música e pela vida. Sentíamos uma afinidade grande, e daí à atração foi um passo. Ele foi o grande amor de minha vida, quer dizer, até a entrada em cena de Joãozinho… Mas essa é outra história.
5. A relação com João Batista de Carvalho provocou a ira de Jacinto e de sua família, verdade?
Sofri ação judicial por abandono do lar e adultério e fui condenada pelo Tribunal Eclesiástico a divórcio perpétuo de Jacinto. Uma infâmia. O que uma mulher não faz para ter o direito de viver o que o seu coração ordena!… Fui amada pelo homem que eu amava, vivi o júbilo e a dor de um amor dilacerante.
6. Por que a dor? Você não foi correspondida nesse amor?
Desencantei-me. O processo de adultério resultou em um escândalo insuportável para João Batista. Minha reputação o prejudicava na Corte, onde ele gozava de alto conceito. Mas vamos esquecer os desencantos. Transformei tudo isso em lindas valsas de sucesso, que, por sua vez, fizeram muitas mocinhas suspirarem… e amarem… e se desencantarem… E assim gira a vida.
7. Como você enfrentou a sobrevivência, sozinha, sem família?
Prefiro não lembrar as coisas amargas, e sim o que teve de bom nesse período: a mão amiga de Callado. Ele me deu trabalho e me orientou musicalmente. Que momento bonito! Em nossas mãos aquelas músicas européias de salão ganhavam um sabor brasileiro, com esse toque inconfundível do nosso ritmo. É um orgulho ter sido discípula e amiga de Joaquim Antonio Callado, para sempre lembrado.
8. É verdade que você desafiou até a língua portuguesa?
Quando estreei como compositora de teatro musicado, a imprensa não sabia como me tratar: maestra? será lícito afeminar esse termo?, perguntaram. Fui a primeira mulher a reger orquestra no Brasil, ou melhor, em língua portuguesa. (risos)
9. Como é olhar para trás e avaliar sua trajetória?
Foi preciso muita coragem, e, graças a Deus, ela nunca me faltou. Trabalhei muito. Fui eu só a mulher que escreveu para o teatro, eu só, sem ter ido estudar na Europa, sem amparo de governos, só e com a minha força de vontade. Fiz o que tinha que ser feito. Se serei lembrada, não sei, que importa?
10. Algum conselho para a mulher brasileira de hoje?
Hoje e sempre: liberdade com dignidade através do trabalho, muito trabalho.
Escrito por: admin / Tags: Tags:Chiquinha,Edinha Diniz,hoje,maestra,teatro
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5 Comentários
Luis Sergio Lima e Silva
a trajetória de vida de chiquinha é modelo, uma bandeira da mulher que contextualiza tão bem no séc. 21. Edinha persona, humaniza e incorpora, bravo!
16 de novembro de 2011 as 14:10
Wandrei Braga
Que maravilha!!! Quero parabenizar o site e especialmente a Edinha diniz pelo primor da entrevista. saudações
16 de novembro de 2011 as 14:36
observador
gostaria de avisar aos editores do site que algumas palavras na entrevista acima encontram-se ligadas uma nas outras.
16 de novembro de 2011 as 14:39
admin
Oi Observador,
Li e reli o texto e não achei as palavras. Você poderia por favor me dizer onde elas estão? Obrigada. Threreza
17 de novembro de 2011 as 11:34
Anaflávia Perilo
Edinha diniz é privilegiada por ter conhecimento suficiente sobre a vida de chiquinha a ponto de imaginar suas respostas para perguntas tão íntimas. Que inveja de edinha (inveja boa!!!) por respirar o universo de chiquinha, por conseguir visualizar com tanta segurança os seus sentimentos, seus pensamentos, suas ideias... que bom deve ser poder enetrar a alma de chiquinha gonzaga, essa mulher gigante em coragem, competência, decência, doçura, humildade e força. Amo demais a história de chiquinha e adoro a existência de edinha que a torna mais próxima de nós.
17 de novembro de 2011 as 20:58





